A Serra da Mantiqueira

AMINTIKIR : A SERRA QUE CHORA

Apresento-lhes brevemente a Serra da Mantiqueira: uma formação geológica com mais de 500 quilômetros de extensão que costura três estados do sudeste brasileiro: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Berço de nascentes que abastecem inúmeras regiões, bem como detentora (ainda) de uma generosa porção de Mata Atlântica, é formada por infinitos cumes e mares de morros entre as cidades de Bragança Paulista, em São Paulo e, Barbacena, em Minas Gerais.

A Mantiqueira tem sua origem datada do período Cenozóico, há 40 milhões de anos atrás, no qual grandes movimentos tectônicos verticais dividiram, em duas partes, uma grande cadeia montanhosa do litoral brasileiro – originando, assim, a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira. Entre essas duas “novas” formações, surgiram um graben, denominação dada a uma depressão de origem tectônica, o Vale do Paraíba.

Com uma biodiversidade única na região e de suma importância no Brasil, muito se tem falado da importância da preservação ambiental da Mantiqueira. Palco de diversas militâncias ambientais, os debates mais atuais trazem novos olhares e reflexões sobre a Mantiqueira: as suas paisagens culturais e sua transitoriedade. São questionamentos que evidenciam que a preservação ambiental está intimamente atrelada ao papel que o sujeito exerce em seu território, ou seja, estamos falando sobre a conexão entre um território, um povo e seus modos de vida.

A paisagem cultural é composta pela relação vital entre o território e a comunidade, é a partir do estudo das diversas paisagens culturais da Mantiqueira que poderemos entender as heranças culturais desta Serra, identificando as diversas linhas que tecem a trama do patrimônio cultural desses sujeitos. Essas linhas não estão estanques no tempo-espaço, mas tecem seu fino bordado na relação de cada sujeito e comunidade com seu território.

Ainda são escassos os estudos culturais que protagonizam o mantiqueirense, seus modos de vida e seu patrimônio cultural, sobretudo pelo foco na proteção da biodiversidade local. Alguns desses trabalhos buscam uma unidade nos aspectos identitários da Mantiqueira, todavia acreditamos que, ao se tratar de um território com mais de 500 quilômetros de extensão, não podemos buscar uma homogeneidade ao abordar a identidade cultural da Serra, pois assim ignoramos toda a riqueza cultural existente. Todavia, também é interessante observar que essa heterogeneidade apresentará paralelos e similaridades, pois trata-se de comunidades em contato com um mesmo tipo de bioma, localizadas em um mesmo território.

O Museu da Mantiqueira é um museu virtual que surge em 2013 com o objetivo de estudar, salvaguardar e difundir os modos de vida do mantiqueirense. Nós acreditamos no poder de militância, persuasão e transformação da arte, história, tecnologia e dos projetos culturais; e além disso, acreditamos no poder (e dever) ativista da instituição museológica. Assim sendo, o MuMan foi pensado a partir da necessidade de ações em meio a um quadro problemático que estávamos vivenciando na região da Mantiqueira: o turismo predatório, a gentrificação rural e o êxodo urbano. Esse quadro ameaça não só a comunidade, mas todo o território. São processos que estão modificando a paisagem cultural, o cotidiano local, o ritmo de vida e o modo desses sujeitos se relacionarem com o seu território.

Tornou-se uma questão delicada em que, de um lado, temos um quadro de crescimento da densidade demográfica e da prática da atividade turística de forma desordenada e sem planejamento adequado que poderão agravar problemas sociais, ambientais e econômicos; de outro lado, queremos propor a valorização dos modos de vida do mantiqueirense sem que se confunda com um “resgate” de costumes, tradições e modos de ser que são estanques em um tempo-espaço, que por consequência, já não fazem mais sentido. É nesse sentido que discorreremos a reflexão neste texto e propomos conhecer um pouco sobre o conceito e a atuação do MuMan.

Texto: Diana Poepcke